
O seu algoritmo de IA vai te eliminar da sua próxima oportunidade de trabalho
03/08/2026Há muitos anos, eu era uma pessoa que “não” tinha um currículo, apesar de ter impresso alguns por volta de 1997, em uma impressora LX-300. Ao longo dos anos, contratei talentos incríveis sem currículo e, inclusive, ajudei algumas pessoas a melhorarem a forma como se apresentavam profissionalmente.
Eu não sou especialista em currículo, mas fui obrigado a olhar para esse tema com mais atenção depois de muitos anos, quando precisei estruturar uma presença digital. Hoje, eventualmente, dou alguns palpites e compartilho erros e acertos com algumas pessoas, no sentido de ajudá-las a vencer algumas das barreiras iniciais.
A realidade é que o primeiro contato frio quase sempre passa pelo currículo, por uma recomendação ou pelo quanto você conseguiu ampliar o seu alcance para além do networking, construindo uma marca pessoal que faz com que pessoas que você nem conhece passem a indicá-lo. Em algum momento, você precisa se apresentar de alguma forma, e é nesse momento que a maneira como organiza e comunica a sua trajetória começa a fazer diferença.
Atuei anos empreendendo, em consultoria, pré-vendas e parcerias. Mesmo sendo um profissional focado em deep tech, precisei construir, ou herdei ao longo do caminho, habilidades para conseguir me apresentar, escutar e me posicionar de acordo com o tempo e o contexto disponíveis. Uma pessoa programadora pode considerar um desperdício de tempo estruturar um currículo, aprofundar o entendimento sobre posicionamento e comunicação e trabalhar a própria presença digital, mas pode acabar sofrendo justamente contra as próprias tecnologias que ajuda a construir.
E aqui existe um contrassenso que chega a ser engraçado. Trabalhamos profundamente com algoritmos, conhecemos como construir sistemas complexos usando inteligência artificial, estudamos os mais variados algoritmos de busca e entendemos as capacidades e os comportamentos de um agente de IA. Ainda assim, quando chega a hora de nos posicionarmos no mercado, muitas vezes não paramos para refletir que também vamos passar por uma seleção feita por algoritmos.
É curioso pensar que passamos boa parte da nossa carreira construindo sistemas para encontrar padrões, buscar informações, classificar dados e tomar decisões, mas não necessariamente aplicamos esse mesmo raciocínio quando precisamos nos apresentar para o mercado. Construímos mecanismos cada vez mais sofisticados para encontrar aquilo que procuramos, enquanto muitas vezes deixamos a nossa própria trajetória espalhada, difícil de encontrar e ainda mais difícil de interpretar.
Recentemente, eu estava ajudando informalmente, vale ressaltar que não é a minha profissão, um profissional incrível, talvez um dos pioneiros em algumas das tecnologias que o mercado mais busca atualmente em inteligência artificial. O profissional era excelente, tinha conhecimento técnico profundo e experiência extremamente relevante, mas a sua presença digital era praticamente invisível para o LinkedIn e, pior ainda, para os filtros de Applicant Tracking Systems, os conhecidos ATS.
Ou seja, alguém que entende profundamente as tecnologias que o mercado procura estava tendo dificuldade para ser encontrado justamente pelos mecanismos utilizados para encontrar profissionais com esse conhecimento. E isso é especialmente interessante quando estamos falando de profissionais de tecnologia, porque existe uma diferença enorme entre ter conhecimento e conseguir fazer com que esse conhecimento seja encontrado e compreendido pelos mecanismos que fazem a primeira seleção.
Isso me fez pensar bastante sobre como, em um mercado cada vez mais mediado por algoritmos, não basta apenas saber fazer. Também precisamos entender como somos encontrados, interpretados e classificados por eles. Antes que uma pessoa consiga avaliar a profundidade do seu conhecimento, existe uma boa chance de que algum mecanismo já tenha decidido se o seu perfil merece ou não chegar até ela.
Passamos anos aprendendo a construir sistemas capazes de encontrar padrões, interpretar informações, classificar dados e tomar decisões. Depois, colocamos o nosso próprio currículo diante desses sistemas e esperamos que eles consigam interpretar, sozinhos, o valor daquilo que sabemos fazer. Existe uma certa ironia nisso, principalmente para quem trabalha diretamente com tecnologia e inteligência artificial.
Talvez não seja uma questão de transformar pessoas em produtos ou currículos em palavras-chave, mas de reconhecer que competência técnica e capacidade de comunicação são habilidades diferentes e complementares. Um profissional pode ter um conhecimento excepcional e ainda assim não conseguir comunicar esse conhecimento de uma forma que seja encontrada e compreendida por quem está procurando exatamente por aquilo.
Hoje mesmo não sendo especialista em currículo, mas, depois de tantos anos contratando pessoas, empreendendo, atuando em oportunidades comerciais, investidores, construindo parcerias, aprendi que saber se apresentar também faz parte do trabalho. Principalmente quando o seu próximo desafio pode estar do outro lado de um algoritmo, e esse algoritmo pode decidir se alguém terá ou não a oportunidade de descobrir o que você realmente sabe fazer.
Bônus, alguns pontos práticos que costumo repassar quando ajudo alguém nessa etapa.
Palavra-chave da vaga presente no corpo do texto, não apenas em uma lista isolada de habilidades, porque contexto e repetição natural pesam na leitura automatizada. Resultado quantificado no lugar de responsabilidade descrita, porque número comunica impacto mais rápido do que função para quem lê depois. Formatação simples, sem tabela ou coluna, porque estrutura visual complexa quebra a leitura de muitos sistemas de triagem. Consistência entre currículo, LinkedIn e demais presenças digitais, porque o cruzamento entre essas fontes hoje faz parte da validação.
Um critério que costuma ajudar a transformar experiência em resultado é o SMART. Específico, mensurável, atingível, relevante para a vaga pretendida e situado em um período de tempo. A diferença entre escrever “responsável por melhorar processos de engenharia” e escrever “reduzi o tempo de deploy de três dias para quatro horas, em seis meses, aplicando pipelines de CI/CD para uma equipe de doze pessoas” é exatamente essa tradução.
Sobre estrutura, por experiência profissional. Resumo curto com contexto da empresa atual, situando o profissional antes do detalhe. Bloco único de “Principais realizações”, com foco em resultado quantificado, absorvendo o escopo de responsabilidades dentro das próprias frases de resultado. Bloco de “Palavras-chave” ao final, como reforço do que já apareceu naturalmente no texto. E o ponto que menos profissionais fazem, vincular essas mesmas palavras-chave às “Skills” do LinkedIn, criando consistência direta entre currículo e perfil.
Se você constrói tecnologia para que sistemas encontrem padrões e tomem decisões, talvez seja hora de aplicar o mesmo raciocínio à sua própria trajetória. Como você tem estruturado a sua presença para ser encontrado pelos algoritmos que decidem quem chega até a próxima conversa.
A estruturação do currículo é apenas um passo, porém o trabalho em plataformas como o LinkedIn é contínuo, principalmente parando de ser um consumidor invisível e passando a interagir em publicações como essa, concordando ou discordando de forma educada. Troca de experiência é sempre valiosa e amplia o seu alcance, seja compartilhando conteúdo, seja deixando pequenos comentários nos posts, seja publicando.
Se um algoritmo já decidiu te eliminar antes de alguém ler o seu trabalho, o problema não é a sua competência, é o que você compartilhou dela. Você concorda. Marca alguém que precisa ouvir isso.
👉 Siga Ramon Durães no Linkedin, visite o perfil e ative notificações para insights sobre estratégia de software. Assine gratuitamente o canal pelo Whatsapp para notificações sobre artigos, eventos relacionados.⚡️
Precisa de ajuda especializada em estratégia de software para apoiar a modernização do seu software e projetos de arquitetura de IA, microsserviços, cloud, RAG? Entre em contato.
Até a próxima !!!
Ramon Durães