
Autoridade não é cargo, é propósito, histórico e entrega de valor
24/02/2026Ao longo de muitos anos eu venho realizando palestras, treinamentos, visitas a clientes e conversas profundas sobre estratégia de desenvolvimento de software. Sempre com intencionalidade, qualidade e respeito pelas pessoas. Nunca foi sobre palco, visibilidade ou volume. Sempre foi sobre impacto real e transformação.
Ao longo desse caminho, algo curioso acontece com frequência. Pessoas que eu nem lembro exatamente quando conheci me param em eventos, aeroportos, corredores ou cafés aleatórios. Elas contam com detalhes onde nos cruzamos, uma palestra, um e-mail, um bate-papo informal, um treinamento. E explicam o quanto aquilo foi marcante na sua trajetória profissional.
Eu quase sempre fico em silêncio ouvindo. Porque, para mim, aquelas interações eram parte natural do meu dia a dia e, para elas, foram pontos de virada.
Com o tempo, percebi um padrão. Pequenas ações feitas com profundidade atravessam o tempo. Elas continuam trabalhando mesmo quando você não está mais presente, porque uma energia positiva compartilhada se multiplica e naturalmente outras pessoas passam a replicar.
Recentemente encontrei duas pessoas com quem havia interagido há mais de dez anos. Conversamos sobre arquitetura, gestão de aplicações e decisões difíceis que tomaram ao longo da carreira. Elas lembravam com clareza de treinamentos, conversas e provocações que tivemos no passado. Eu já não lembrava dos detalhes. Elas lembravam de tudo. Aquilo que para mim era rotina, para elas foi transformador e hoje estão em outro nível.
Outro encontro, também casual, aconteceu em São Paulo. Em um café informal, um profissional estava me ajudando com algumas questões de forma extremamente cordial e eu agradeci muito. Em determinado momento ele comentou que eu já havia ajudado ele anos atrás. Perguntei como. Ele contou que, a partir de conversas e palestras que acompanhou, mudou completamente sua postura profissional. Buscou mais profundidade estudando tecnologia, passou a interagir com comunidades, se desenvolveu, evoluiu de cargo, aumentou sua renda e mudou a realidade da sua família. Hoje atua em uma grande empresa no Brasil.
Às vezes são tantas conversas aleatórias que nós perdemos a dimensão desses momentos valiosos. E ele falou algo que ficou comigo. Disse que pequenas ações mudaram o destino dele e das pessoas ao redor que ele passou a ajudar. Naquele momento eu pensei como a gente quase nunca enxerga o alcance do que faz, principalmente quando faz com verdade, propósito e intensidade.
Esse é o tipo de impacto que raramente aparece no curto prazo e que naturalmente descarta os ansiosos por estrelinhas e palcos. Na maioria das vezes, você nem fica sabendo.
No entanto, como em qualquer jornada, você também vai passar por momentos de desconforto. Principalmente porque fazer o certo não é apenas sobre inspirar, também envolve dizer não. E dizer não custa caro, especialmente para quem ainda não entende o propósito, que é diferente do valor monetário.
Ao longo da minha trajetória eu tive diversas oportunidades de aparecer, de participar de iniciativas que não faziam sentido para os meus valores, de seguir caminhos mais fáceis ou mais rápidos. E nesses momentos eu disse não. Não por rigidez, não por ego, mas por consciência. Pela tranquilidade de tomar a melhor decisão possível naquele contexto.
O maior peso de um líder é ter a coragem de dizer não e conviver com o ruído e o estranhamento. Às vezes isso gera afastamento. Muitas pessoas demoram para entender. Só que, com o tempo, algumas dessas mesmas pessoas voltaram. Voltaram para agradecer. Voltaram para dizer que aquele não foi importante porque evitou um caminho ruim. E voltaram com um pedido direto, me ajuda a continuar.
Isso também é trabalho bem feito. É atuação intencional. É responsabilidade. É a decisão de construir valor, mesmo quando isso exige mais esforço e mais paciência. E você precisa se preparar para tomar boas decisões todos os dias, inclusive as não agradáveis naquele momento.
Esse princípio fica ainda mais evidente em ambientes corporativos. Quem lida com temas críticos sabe que a resistência é alta. Falar verdades com respeito gera desconforto. Questionar estruturas gera atrito. Nem todo mundo está pronto para escutar, reconhecer que precisa de ajuda, abrir mão do histórico e do sempre fizemos assim para construir um olhar diferente com humildade e maturidade.
Em outra oportunidade, atuando em uma reunião, eu vivi uma situação assim. Uma conversa intensa com um cliente novo. Resistência clara. Clima cordial, mas tenso. Em determinado momento, a pessoa disse que chamaria alguém para ouvir o que eu estava dizendo, mas para descartar o assunto, porque aquilo não fazia sentido para ela. A frase foi direta e o ambiente ficou ainda mais carregado.
Alguns minutos depois essa pessoa entrou na sala e a primeira coisa que disse foi o meu nome. Sorrindo, trocou o céu cinzento por azul em segundos e pediu para tirar uma foto. O tom mudou completamente. Eu até fiquei meio sem graça pelo caminho que a conversa tinha tomado, mas seguimos. Fomos para outra sala e tivemos um bate-papo incrível. E a postura mudou de vez.
Aquela pessoa já chegou dizendo algo que define muita coisa. Sim, nós temos problema, precisamos ouvir uma opinião diferente e é essa pessoa que vai nos ajudar a discutir e desenhar uma nova solução. O fechamento dessa conversa foi uma grande surpresa e posso dizer com tranquilidade que não foi sorte. Foi histórico, consistência e reconhecimento de propósito e entrega de valor, reforçando que autoridade não é cargo, é uma conquista que atravessa momentos.
Autoridade é uma construção. Ela nasce quando você faz o certo com qualidade e profundidade, quando sustenta decisões difíceis, quando respeita pessoas e quando entrega valor real.
E o mais interessante é que esse tipo de autoridade não precisa ser anunciada. Ela se manifesta. Em encontros aleatórios. Em histórias que você nem lembrava. Em situações tensas que mudam de direção. Em portas que se abrem sem você pedir.
Alguns insights aprendidos após tantos anos observando essas histórias:
1. Trabalho bem feito é silencioso – Ele não precisa de palco nem de validação constante. Ele se sustenta ao longo do tempo.
2. Impacto real quase nunca é imediato – Se você mede valor apenas pelo retorno de curto prazo, vai desistir antes de construir algo relevante.
3. Dizer não é parte da maturidade profissional – Integridade cobra um preço inicial, mas cria confiança duradoura.
4. Autoridade não se explica, ela aparece – Quando você constrói com coerência, o seu histórico fala antes de você entrar na sala.
5. Propósito sustenta quando o caminho fica mais difícil – É ele que mantém consistência quando o reconhecimento demora.
Talvez a pergunta mais importante não seja onde você quer chegar, mas o que você está construindo todos os dias enquanto caminha, atravessa obstáculos, cai, levanta e continua olhando para a frente.
Porque no fim, as pessoas não lembram de empresas, cargos, títulos ou discursos. Elas lembram de como você as ajudou a pensar melhor, decidir melhor e evoluir. Mesmo quando você não percebeu, mas naturalmente compartilhando a sua empolgação em construir e transformar.
Se você hoje ocupa uma posição de influência, formal ou não, vale uma reflexão honesta. Que decisões você tem evitado tomar, que conversas você tem adiado e que padrões você tem aceitado mesmo sabendo que não são os melhores? Compartilhe nos comentários.
Autoridade não se constrói quando tudo está confortável, ela se constrói exatamente nos momentos em que seria mais fácil ceder.
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Ramon Durães